
Se você sente que a sua cabeça funciona como um navegador de internet com 20 abas abertas ao mesmo tempo e, em alguns momentos, com uma música aleatória tocando em uma delas, saiba que você não está só.
A pergunta “você tem uma mente tagarela?” virou quase um teste de diagnóstico informal nas redes sociais. Mas será que ter um fluxo constante de pensamentos é realmente um problema a ser “consertado”?
O excesso e o contexto
Houve um homem na história que se tornou cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. O nome dele? Leonardo di Ser Piero da Vinci, ou simplesmente Leonardo da Vinci.
Hoje, ninguém se atreve a dizer que ele foi uma pessoa “sem foco” ou alguém com a mente atrapalhada por ter muitos pensamentos e gostos diferentes. Na verdade, ele entrou para a história como “o brilhante Leonardo”.
Segundo a historiadora de arte Helen Gardner, a profundidade e o “alcance de seus interesses não tiveram precedentes e sua mente e personalidade parecem sobre-humanos para nós, tornando o homem em si misterioso e distante”.
Se Da Vinci vivesse nos dias de hoje, será que receberia um rótulo rápido da internet por não conseguir focar em uma única coisa?
A Avalanche de Diagnósticos e a Patologização do Normal
Nos últimos tempos, fomos engolidos por uma avalanche de rótulos e diagnósticos. Você já percebeu? A sensação é de que qualquer desvio de um estado de paz absoluta e meditação profunda virou sintoma.
Parece existir um erro grave em pensar demais, em pular de um assunto para o outro ou em ter uma cabeça que simplesmente não se cala. Venderam para nós a ideia de que a mente ideal precisa ser um ambiente extremamente silencioso, minimalista e perfeitamente organizado.
Essa calmaria mental pode até ser a realidade de algumas pessoas, mas a outra realidade, a minha e talvez a sua, com uma mente borbulhante, também existe e não precisa ser encarada como uma doença. A tagarelice mental pode não ser exatamente um defeito de fábrica nem uma falha de atenção. Muitas vezes, é apenas a forma como a gente funciona.
Bastidores de uma Mente Tagarela em Ação
Para exemplificar como isso funciona na prática, deixei meu próprio falatório interno operar livremente na última semana.
Eu estava ouvindo o audiobook de Verity, de Colleen Hoover, um romance com thriller psicológico instigante. Este bendito livro ficou conversando comigo por dias. Eu só queria encontrar alguém para conversar sobre ele e debater todas as “abas” que se abriram na minha cabeça: a psicologia dos personagens; teorias sobre as nossas próprias histórias de vida; mecanismos de manipulação; a complexidade das relações humanas.
Enquanto o livro rodava em segundo plano na minha mente, abria-se todas as outras abas paralelas:
A apresentação da escola da minha filha de 8 anos. Com ela vinham os microdetalhes: a roupa, o cabelo, a meia-calça, a sapatilha, o horário e até a hidratação dela. Onde comprar, qual tamanho – a menina crescia de um dia para o outro, etc, etc.
Ao mesmo tempo, surgia a preocupação insistente de que meu filho de 12 anos não anda muito gostando da escola, acompanhada de mil pensamentos sobre o que eu poderia fazer para ajudá-lo a se interessar mais. Seria da idade? Seriam os novos amigos? Devo levar ao terapeuta? Seria falta de alguma vitamina?
E para coroar a semana, não posso me esquecer da infiltração persistente que apareceu na minha casa. Ninguém descobre de onde vem a água. A essa altura, já penso em trazer um padre para tentar um exorcismo, porque talvez seja algo desse tipo.
Eu poderia continuar essa lista por páginas, mas receio que você se canse e não continue por aqui. O ponto é: a lista de pensamentos perambulantes e suas respectivas abas é significativa e diária.
Por Que a Mente Tagarela Pode Ser o Seu Maior Superpoder?
Depois de muito observar a mim mesma e aos outros, cheguei à conclusão de que ter uma mente que conversa o tempo todo costuma ser o grande motor de pessoas profundamente criativas.
É essa tagarelice interna que faz você conectar ideias que ninguém mais conectaria. É ela que te impulsiona a criar, aprender, resolver, selecionar. Aceitar que somos assim nos faz enfim relaxar e desfrutar deste nosso jeito ao começar e se apaixonar por três hobbies novos em um único mês; devorar conteúdos sobre assuntos completamente aleatórios com entusiasmo, encontrar soluções inovadoras de forma simples, rir das coisas do dia a dia ao perceber que está tudo bem ter esse monte de coisas esperando para serem resolvidas ou não, que assim é “viver”.
Uma cabeça agitada muitas vezes é só o reflexo de uma vida interior rica. Quem tem muitos gostos, quem se interessa de verdade pelo mundo, quem observa os pequenos detalhes e guarda histórias, naturalmente vai ter um falatório interno mais alto. Não se trata de descontrole; trata-se de repertório em movimento.
Mente Inquieta ou Transtorno? Como Identificar a Diferença
Claro que aprender a desacelerar quando o cansaço físico e mental bate é fundamental. Mas existe uma diferença enorme entre buscar descanso e tentar calar à força a própria personalidade.
Em vez de patologizar cada pensamento que surge ou tentar se enquadrar no silêncio dos outros, que tal fazer pazes com o seu barulho interno?
Talvez, neste exato momento, tenha se aberto uma caixinha de perguntas na sua cabeça. Eu conheço bem essa voz: “Será?”, “E se?”, “Mas e se eu realmente tiver algo?”.
Para responder a isso, vale lembrar o que a Dra. Ana Beatriz Barbosa cita frequentemente sobre o tema: todos nós temos características que, em algum momento ou isoladamente, lembram sintomas de algum transtorno mental. Ter momentos de dificuldade de concentração ou esquecer coisas com facilidade no dia a dia não torna você automaticamente uma pessoa com TDAH, por exemplo.
Certa vez, em terapia, a profissional que me atendia me convidou a fazer um exercício simples para identificar se aquilo de que eu me queixava estava fora dos padrões de normalidade. Trata-se de avaliar o quanto a sua mente agitada está, de fato, prejudicando você no dia a dia, nas suas relações familiares, no trabalho ou nos estudos.
A minha resposta para todas essas perguntas foi um sonoro “não”. A conclusão da terapeuta foi reconfortante: minha tagarelice mental, no máximo, me tornava uma pessoa estranha ou muito interessante — dependendo puramente do interlocutor.
Faça Pazes com a Sua Cabeça
O fato é que aceitar meu jeito tagarela e aprender a curtir tudo o que essa dinâmica pode oferecer me trouxe paz e autoaceitação.
Aceitei que sou alguém multifacetada: gosto de cuidar da minha casa e da minha família na mesma proporção em que gosto de aprender sobre coisas novas. Amo me envolver em debates intelectuais profundos com a mesma paixão com que me dedico a projetos manuais e artesanato.
A mente agitada não precisa ser uma gaiola. Quando aprendemos a não ter medo do nosso próprio fluxo de pensamentos, percebemos que ele é apenas a nossa curiosidade em estado puro.
Portanto, acredite: abraçar a sua mente tagarela é profundamente libertador!
Faz sentido? Me conta!
Sil
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